Entrevista à "Contacto Verde"



“Uma maior coesão do projecto ecologista juvenil”

Entre 25 e 29 de Agosto, em Constância, teve lugar o acampamento da Ecolojovem-”Os Verdes” sob o lema “Pela defesa da Água!”.
Em entrevista à Contacto Verde os jovens ecologistas deram a conhecer um pouco do ambiente vivido, das actividades desenvolvidas, dos debates e reflexões e das apostas já definidas para iniciativas futuras.

O que gostariam de destacar da participação neste último acampamento da Ecolojovem-”Os Verdes”?
Gonçalo Barreiros: Destaco o convívio e as actividades que foram realizadas no decorrer do acampamento, como por exemplo a canoagem e a visita ao centro de Ciência Viva, que possibilitaram que os jovens que participaram no evento pudessem experimentar algo de novo e adquirir conhecimentos. A descida do rio Tejo de canoa foi uma experiência única, por todo aquele contacto com o rio e com toda a paisagem que o envolve. A tertúlia sobre a água foi, também, um bom momento de reflexão e discussão. Destaco, ainda, o bom clima vivido no local bem como e o espírito "verde" que foi transmitido pelo grupo.

Qual o motivo para a temática escolhida para este acampamento da Ecolojovem-”Os Verdes”: “Pela defesa da Água!”?
Cláudia Madeira: Os acampamentos da Ecolojovem incidem sobre temas actuais e importantes para a sociedade. Este ano realizámos o Acampamento pela Defesa da Água com o objectivo de defendermos este bem essencial à vida e de, através de um conjunto de acções, como a tertúlia ou a distribuição de documentos, reforçar a nossa posição contra a privatização da água que é um direito e deve estar acessível a todos.
A Ecolojovem sempre defendeu uma gestão pública da água, com preços justos e com um serviço de qualidade, contrariando as políticas dos sucessivos governos que têm tratado este recurso como uma mercadoria, subjugando-o ao poder económico que se apropria de bens tão essenciais à vida como a própria água, não para servir a humanidade, mas tão-somente para enriquecer cada vez mais.
Na nossa perspectiva e tendo em conta a actuação do governo relativamente à água, era importante, pertinente e urgente discutir sobre esta matéria, no sentido de alertar e sensibilizar a população em geral e, concretamente, os jovens.
Além desta temática central, ao longo dos vários dias do acampamento foi-nos possível discutir outras questões, que estão também no centro das preocupações dos jovens ecologistas como os incêndios florestais, o ensino, o emprego, a habitação, entre outras.

Que temas estiveram em debate na iniciativa Tertúlia sobre a Água realizada no acampamento?
Inês Cruz: Apesar da grande multiplicidade de considerações que surgem sempre em torno do tema central “Água”, a discussão que se desenrolou sob a orientação do convidado deste ano - Francisco Madeira Lopes - seguiu em direcção às preocupações mais urgentes e decisivas. Destacou-se desde logo o problema da escassez deste recurso (aliada ao aumento da população mundial), que ainda hoje é causa de morte para milhões de seres humanos e motivo de conflitos territoriais, e cujo reconhecimento levou à formulação do Direito Sobre a Água. A juntar a isto, a própria determinação sobre o uso da água, nomeadamente a prevista na Lei Quadro da Água, veio promover uma mudança cada vez mais vincada duma gestão pública e responsável da água, para uma gestão privada que, para manter os lucros, trata este recurso como uma mercadoria, explorando ainda outras vertentes proporcionadas pelos recursos hídricos (nem sempre sustentáveis para o próprio ciclo da água), o que prova a ineficácia desta lei na sua execução, apesar da ONU ter recentemente efectivado a Consagração da Água como um Direito Humano.
Acrescente-se ainda a estes problemas a inoperância das ETAR´s, cuja percentagem de tratamento efectivo de águas residuais é assustadoramente baixa (apesar da existência de verbas financeiras específicas para melhorar estas estruturas). Sobressaiu ainda desta discussão o mau uso da água, sendo que o nosso país continua a ser um dos países com maior índice per capita no uso deste recurso, o que aponta para uma educação ambiental insuficiente, e também falta de vontade política, pelo que o PEV não entende o porquê do Programa Nacional Para o Uso Eficiente da Água continuar por aplicar.

Que questões da presente situação da juventude estiveram em foco na reunião com a associação realizada?
Ricardo Fernandes: No âmbito do acampamento realizado, a Ecolojovem-«Os Verdes» reuniu com a direcção da Federação das Associações Juvenis do Distrito de Santarém (FAJUDIS) com o intuito de ter um conhecimento da realidade associativa juvenil no distrito de Santarém, bem como conhecer as necessidades e aspirações dos jovens. Esta federação fundada em 1993, conta actualmente com 34 associados, com sede nos diversos concelhos do distrito de Santarém. De entre os associados existem 2 associações juvenis que abordam exclusivamente problemáticas ambientais, com sede nos concelhos de Coruche e Rio Maior, sendo que as restantes possuem uma abordagem transversal das questões ambientais numa perspectiva de sensibilização e educação ambiental da população. As associações juvenis surgem na sequência da necessidade de colmatar necessidades sentidas pelos jovens em diversos domínios sociais, culturais, recreativos e ambientais, as quais contribuem inequivocamente para o desenvolvimento local e regional. A FAJUDIS dinamiza diversas acções de formação, principalmente na área da formação de dirigentes juvenis, bem como disponibiliza diversa informação e recursos técnicos no apoio à constituição de associações juvenis.
Tendo em conta a importância que representa a mobilização dos jovens, a FAJUDIS vai continuar a apostar numa crescente mobilização das associações de jovens no distrito.
Tanto a Ecolojovem como a FAJUDIS mostraram-se disponíveis para futuras acções no distrito, por forma a dinamizar esta região.
Neste Verão, mais uma vez, o país tem-se debatido com o flagelo dos incêndios. Qual a perspectiva da Ecolojovem-”Os Verdes” quanto às acções que se afirmam necessárias para fazer face à actual situação?
Cláudia Pedroso: Temos assistido nos últimos dias Portugal a ser novamente fustigado pelas chamas que nos consomem o nosso património florestal, incêndios esses verificados devido às condições de temperaturas elevadas, e por muitas vezes ao próprio descuido da população.
Podemos tomar diversas medidas de prevenção aos incêndios tais como: não fazer queimadas em terrenos situados nos interiores das matas, não lançar fogo-de-artifício nas zonas periféricas, não queimar lixo no interior das florestas, não fazer lume de qualquer espécie nem no interior das matas nem nas estradas que as atravessam… A longo prazo podemos considerar três medidas fundamentais e que não podem continuamente ser deixadas para segundo plano: o incentivo ao repovoamento humano do interior do país, um ordenamento florestal que impeça grandes manchas contínuas de monocultura de pinheiro e eucalipto alternando-as com manchas de florestas autóctone, e um efectivo combate às alterações climáticas. É necessário proceder à vigilância de todos os nossos “pulmões florestais”, não só nesta época mais crítica como também ao longo de todo o ano como medida de prevenção.

No quadro das iniciativas da Ecolojovem-”Os Verdes” que apostas se vão manter e que novas podem desde já avançar?
Sónia Colaço e Susana Silva: A Ecolojovem-«Os Verdes» continuará a empenhar-se na realização do acampamento de Verão, uma vez que permite, ao longo de vários dias, sob um tema específico, a realização de diversas actividades, que possibilitam conhecer a região onde o mesmo se realiza, aliando as vertentes ambientais, culturais e sociais. Continuaremos a privilegiar o contacto com a população local, alertando-a para a temática em questão.
No decorrer do acampamento são importantes os momentos de debate, onde a partilha de conhecimentos e ideias permite aos jovens tomarem consciência das várias realidades do nosso país, por isso as tertúlias serão uma iniciativa a manter e a promover. Iremos continuar a realizar reuniões com as associações juvenis locais, de modo a podermos não só conhecer as situações e dificuldades que os jovens e a sociedade local vivem, como também desenvolver uma maior cooperação no sentido de encontrar respostas para os problemas que afectam os nossos jovens.
A Ecolojovem-«Os Verdes» pretende continuar a realizar momentos de convívio entre os seus jovens activistas, pois considera que através dos mesmos se fortalecem os laços de amizade permitindo uma maior coesão do projecto ecologista juvenil, e ainda porque acreditamos e defendemos que é nos jovens que reside a mudança da actual sociedade para uma outra mais sustentável e justa.
in Contacto Verde nº 92, 1 de Setembro de 2010

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